quinta-feira, 5 de fevereiro de 2015

Telhados

Em pleno centro da cidade ainda restam casas antigas, centenárias ou quase centenárias, com telhados de telha portuguesa.
São telhas enormes, algumas, as bem antigas, segundo defende uma interpretação, feitas ainda por escravos.
Essa mesma interpretação sustenta que a forma irregular que apresentam deve-se ao fato de terem sido moldadas no barro sobre a coxa.
Pois esse é parte do universo de Sueto.
Aí se encontra com o Gato Pardo e gosta de tomar seu banho de sol, não tanto agora no verão, mas no inverno, quando não está quase se imolando dentro da lareira.
De minha janela, que dá para tantos mistérios, inclusive do universo que observo à noite pelo telescópio, observo os passeios de Sueto.
Aproveito para ir na estante e tirar um livro para ler. E abro na página em que o poeta diz...

Chego à janela e vejo a rua com uma nitidez absoluta.
Vejo as lojas, vejo os passeios, vejo os carros que passam,
Vejo os entes vivos vestidos que se cruzam,
Vejo os cães que também existem,
E tudo isto me pesa como uma condenação ao degredo,
E tudo isto é estrangeiro, como tudo.

Janelas do meu quarto,
Do meu quarto de um dos milhões do mundo que ninguém sabe quem é
(E se soubessem quem é, o que saberiam?),
Dais para o mistério de uma rua cruzada constantemente por gente,
Para uma rua inacessível a todos os pensamentos,
Real, impossivelmente real, certa, desconhecidamente certa,
Com o mistério das coisas por baixo das pedras e dos seres,
Com a morte a por umidade nas paredes e cabelos brancos nos homens,
Com o Destino a conduzir a carroça de tudo pela estrada de nada.

Nesse momento Sueto assoma à porta e me pede, percebendo o livro em minhas mãos, para ouvir "Janela em que te Debruças". 
É uma de suas poesias favoritas e uma das minhas também.
São coisas assim que nos unem tão fortemente
Eu não me faço de rogado e recito.



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