sexta-feira, 22 de abril de 2011

Sueto Heroína das Revoluções Felinas

Nunca consegui saber muito bem quais as convicções políticas da Sueto.
Por um período pareceu-me ser capitalista.
Mais tarde deu-me a impressão de não ter qualquer convicção. Mas, bem no início, me aprazia acreditar que era socialista. Foi quando escrevi:

Sueto Heroína

Encontrei Sueto na estrada
com poucos dias de vida
Tinha um irmão, Mandela, que dei
Às vezes ela canta o texto de Brecht

"Eu sou Sueto
eu vim do gueto
meu irmão é Mandela
eu sou preta
e meu irmão é preto"
Não sei se ela lê Marx
mas quero crer
que é socialista
Suspeito que esteve
na Guerra Civil da Espanha
ao lado dos republicanos
lutado no Vietnã
desaparecida na Argentina
para reaparecer insurgente
em Bagdá num subúrbio
Sueto heroína
das revoluções felinas


Enquanto ela canta acompanho no piano tocando melodias de Kurt Weil.
Eu bebo vinho, ela não bebe nada, mas parece ficar embriagada.
E quando vou dormir, não sei se sob o efeito do vinho, tenho a impressão de que baixinho ela entoa a Internacional.

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quarta-feira, 13 de abril de 2011

O Sentido da Vida


Minhas lembranças à Sueto.
Se ela tiver inspirada...pergunte-lhe qual o sentido da vida. Vou confiar nela.
J.


... Vou perguntar mas preciso pegá-la de jeito... não temos conseguido sentar juntos para escrever...
Sueto, aliás, me suscita várias dúvidas... poderia começar pela dúvida se existe, mas existe, sim, costuma ficar o dia inteiro pela casa, não é, assim, um ente de minha imaginação... imaginação talvez seja pensar que ela escreve, que se expressa... é aí que realidade e ficção se dão as mãos... talvez transfira para a Sueto, para que diga com seu jeito felino, algumas coisas que não teriam graça se ditas por mim... talvez....
Quanto ao sentido da vida me arrisco a dizer algumas palavras, palavras que talvez pudessem ser dela.
Por exemplo, o sentido da vida será o mesmo para humanos e felinos?
Temos necessidades que parecem ser comuns, temos mesmo semelhanças tão grandes que nos permitimos supor que os gatos estão se humanizando ou nós nos transformando em felinos.
Mas estas semelhanças tem um limite.
É quando este limite parece ser transposto que nos atinge o desassossego.
Compartilhamos muitas coisas, os espaços da casa, às vezes a comida, em alguns casos até a cama.
Os felinos andam à nossa volta, movimentando-se ou, como é típico deles, permanecem estáticos em lugares que podem ser os mais inesperados, como se fôssem estatuetas ornamentando o ambiente.
Nestes momentos pergunto-me se o sentido da vida não é comum, afinal estamos juntos respirando o mesmo ar e vivendo o mesmo mistério .
Toda a história humana, toda a evolução tecnológica, não permitiram até hoje fornecer ao homem respostas para questões relevantes.
O sentido da vida, por exemplo.
Neste ponto não sei se estamos adiante dos gatos.
Observando a Faluja que me segue por todos os pontos da casa me pergunto até se ela não está mais próximo desta resposta do que eu.
Quanto à Sueto nem falar.
A impressão que me dá, acomodada em sua almofada como uma esfinge, é que já conhece o sentido da vida há muito tempo mas não deixa transparecer nenhum indício e o guarda para si. Por isto, talvez, detentores deste conhecimento, os gatos nos pareçam tão circunspectos e apenas vagamente interessados no que se passa ao redor.

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