sábado, 12 de dezembro de 2015

Cony é assertivo: " Maura é maior que a autora de A Hora da Estrela"

Num universo literário brasileiro em que se pode ficar com a idéia de que os únicos nomes femininos de importância, pela orbitação em torno deles, são Clarice Lispector e Hilda Hilst, sempre é bom saber que isso é restringir demais a participação e a importância da mulher nesta seara.
Maura Lopes Cançado , mineira de São Gonçalo do Abaeté, parece ser um exemplo disso.
 Associada por vezes a Clarice Lispector, para Cony a comparação nunca fez muito sentido. Ele é assertivo: Maura é maior que a autora de "A Hora da Estrela". "Clarice, de certa forma, viveu em sua redoma; Maura não. Maura não é peixe de aquário: é peixe de oceano, que vai fundo."
(P.R.Baptista)


Esquecida por anos, obra da escritora Maura Lopes Cançado é reeditada
RODOLFO VIANA
12/12/2015  02h10

Quando tinha sete anos –época em que os ataques epilépticos começaram–, Maura Lopes Cançado tinha o hábito de inventar personagens para si. Contava aos amigos que seus pais eram russos, que sua irmã se chamava Natacha, que um tio nascera na China. Este talvez seja o primeiro registro da habilidade narrativa da mineira nascida em São Gonçalo do Abaeté, em 1929 –e também um indício de sua esquizofrenia.

Anos mais tarde, já na década de 1960, Maura se tornaria uma escritora tão brilhante quanto breve. Admirada por literatos como Ferreira Gullar e Carlos Heitor Cony, teve apenas dois livros publicados: o diário "Hospício é Deus", escrito em 1959 e publicado em 1965, e a coletânea de contos "O Sofredor do Ver", de 1968.

Ambas as obras são carregadas nas tintas da loucura com que Maura pintava a vida, o que a levou a ser internada diversas vezes em hospícios de Minas e do Rio e rasurou seu nome na história da literatura –sobretudo depois que a escritora matou uma interna grávida estrangulada com um lençol, e foi condenada em um manicômio judiciário.

"Todos lembram os aspectos negativos, que ela era louca", afirma Maria Amélia Mello, editora da Autêntica, que relançou caixa com as obras de Maura recentemente, depois de anos sem constar em catálogos –e, no período, ao custo de até R$ 800 em sebos. "O que a gente quer é que olhem para o texto dela, que é visceral, tem alta voltagem, e que uma geração inteira não conhece."

A história é cruel com os loucos e, de fato, Maura caiu no esquecimento depois da morte, em 1993, apesar de constantemente ter sido comparada a escritoras como Clarice Lispector.

Comparação que, para Cony, nunca fez muito sentido. Ele é assertivo: Maura é maior que a autora de "A Hora da Estrela". "Clarice, de certa forma, viveu em sua redoma; Maura não. Maura não é peixe de aquário: é peixe de oceano, que vai fundo."

Responsável por apresentá-la à redação do SDJB (Suplemento Dominical do Jornal do Brasil), onde a escritora estreou com um poema, Ferreira Gullar afirma, em depoimento no perfil biográfico escrito pelo jornalista Maurício Meireles, colunista da Folha, e incorporado aos livros da escritora, que a obra de Maura é "um dos mais contundentes depoimentos humanos já escritos no Brasil". Cony faz coro: "A maior escritora do país".

As afirmações hiperbólicas encontram vozes consonantes –mas ainda tímidas–na academia, que, nos últimos anos, retomou os escritos de Maura.

Uma pesquisa simples entre os mais de 340 mil trabalhos depositados na Biblioteca Digital Brasileira de Teses e Dissertações apresenta nove estudos relacionados à escritora no período entre 2006 e 2015.

Não causa espanto, mas é curioso notar que quatro desses trabalhos têm "loucura" como palavra-chave.

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