domingo, 31 de janeiro de 2010

Pura Maldade

Esta noite fiquei até bem tarde escrevendo ao computador e, quando saí, Sueto saiu na minha frente, como costuma fazer, como que querendo me indicar o caminho e eu pudesse não saber me orientar dentro de minha própria casa até porque, embora grande, todas as peças se interligam através de um longo corredor!
Ela, porém, sempre gosta de fazer isto.
Na verdade, estou convencido, como supõe que vou chegar na cozinha ( a probabilidade é bem grande) antecipa-se para conferir se não vou lhe dar nada para comer.
E, de fato, não deixa de ter razão pois me encaminho para lá. e acabo obsequiando-a com um punhado de ração.
É , então, que me deparo com a cena triste de uma lagartixa estendida no chão, morta e já sendo devorada por formigas ( de onde saíram, como percebem tão prontamente um acontecimento aparentemente tão insignificante?)
Concluo rapidamente que o pobre bichinho foi sacrificado pelo "anjinho" que se roça nas minhas pernas emitindo um miadinho inocente.
Como podem os gatos serem tão espontaneamente assassinos, por prazer ou curiosidade e, quase no mesmo momento, tão meigos e ingênuos?
Enquanto a Sueto segue beliscando sua ração que poderia servir para aplacar seu instinto pedrador, mergulho numa reflexão.
Mas não chego a concluir nada.
E talvez porque vou dormir com esta inquietação, acabo acordando no meio de algo que poderia ser um pesadelo pois lembro que, em algum momento, me transformara numa lagartixa.
Aproveito, já de pé, para ir a cozinha e beber um copo d'água. Noto, então, que Sueto não está deitada em sua almofada como de costume.
Chamo-a e nada...
Como estou com sono deixo-a de lado e volto a dormir.
Apenas no outro dia, tomando meu café da manhã, tenho minha atenção solicitada pela empregada que, varrendo a casa, encontra alguma coisa que vem me mostrar.
Pois confesso que é com um pressentimento pouco confortável que a vejo trazer, na pá de lixo que empunha, uma outra lagartixa atacada da mesma forma que a primeira. Até mais dilacerada como que vítima de um ataque de maior ferocidade.
Num movimento meio instintivo olho ao redor para encontrar Sueto que, de volta à sua almofada, espicha-se adormecida...

5 comentários:

  1. P.R., impressionante como consegues escrever de forma tão transparente... parece até uma imagem... a visualização é estupenda!!!!! a história da Sueto ter matado uma outra lagartixa... genial!!!!!!!!

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  2. ...eu já devia estar acostumado com este lado cruel da Sueto mas, toda vez que acontece, volto a ficar chocado... e o mais preocupante é que quanto mais humana ela se torne mais cruel passa estar propensa a ser...

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  3. mas a maldade dela não é cultural, social... não é construída... por mais humana que ela possa vir a ser, a maldade dela sempre será natural... bem diferente da gente: que construímos... que inventamos a maldade...

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  4. ... acho que a maldade dela é felina...mas temo que possa pela proximidade com os humanos, tornar-se mais elaborada, maia consciente, como a tortura... mas isto são especulações que parecem não lhe interessar neste momento... com o calor excepcionalmente intenso destes dias ( temperaturas que beiram os 40 graus), Sueto parece unicamente concentrada em dispender o mínimo de energia deixando-se, como numa "hibernação" de verão,ficar espalhada pelo chão.

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  5. Também não sei se sou eu que deveria concordar ou deixar de concordar com tudo que se diga sob re a Sueto mas ela própria. Na realidade, embora andando na minha volta o dia todo e deitando em meus chinelos, talvez seja muito mais um ente de ficção que qualquer outra coisa. Ponho palavras na sua boca e brinco que ela é que as diz e parece que tudo não passa disto mas, no momento seguinte, preciso que ela diga e pense coisas que são suas e, assim, o enredo vai tomando vida. E ela vai adquirindo uma autonomia que é só dela com todas as contradições, anseios e caprichos ( principalmente caprichos) que é de supor que um humano tenha.

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