Caminhando pelo calçadão da Conselheiro Mafra em Florianópolis encontro Cleo.
Posta-se à entrada da papelaria ali existente recepcionando os clientes elegantemente sentado.
Permanece imperturbável ao mesmo tempo concedendo um inesperado atrativo ao local e aparentando estar um pouco contrariado com alguma coisa.
Não seria, por acaso, o crachá, com seu nome, que o deixa assim?
Talvez se pergunte o que possam pensar os transeuntes. Que é um funcionário? Ou um gato de estimação do dono ou gerente da loja?
Mas não deve ser isto que parece preocupá-lo. Cleo deve estar apenas exibindo um ar de amuado, comum aliás nos gatos, para demonstrar de forma clara sua indiferença pelas coisas do mundo dos homens. Seu pensamento está longe dali.
Ao me aproximar para entrar na loja Cleo me ignora. Peço-lhe com licença mas parece não me ouvir.
Como não quero criar caso dou um jeito de ir passando ao seu lado cuidadosamente.
Sua indiferença , aliás, é tamanha que tenho a estranha sensação de que não existo.
Ou existo apenas num plano inferior muito aquém daquele pelo qual os gatos costumeiramente transitam nas alturas de suas especulações felinas.

