Carta do Gatinho Preto
D. Alba,
Só agora posso pegar na pena e escrever-lhe para agradecer o obséquio que me
fez dando-me de presente ao velho amigo Machado. No primeiro dia não pude conhecer
bem este cavalheiro; ele buscava-me com palavrinhas doces e estalinhos, mas eu fugia-lhe
com medo e metia-me pelos cantos ou embaixo dos aparadores. No segundo dia já me
aproximava, mas ainda cauteloso. Agora corro para ele sem receio, trepo-lhe aos joelhos
e às costas, ele coça-me, diz-me graças, e, se não mia como eu, é porque lhe custa, mas
espero que chegue até lá. Só não consente que eu trepe à mesa, quando ele almoça ou
janta, mas conserva-me nos joelhos e eu puxo-lhe os cordões do pijama.
A minha vida é alegre. Bebo leite, caldo de feijão e de sopa, como arroz, e já
provei alguns pedaços de carne. A carne é boa; não creio, porém, que valha a de
camundongo, mas camundongo é que não há aqui, por mais que os procure. Creio que
desconfiaram que há mouro na costa, e fugiram.
Quando virá ver-me? Eu não me canso de ouvir ao Machado que a senhora é
muito bonita, muito meiga, muito graciosa, o encanto de seus pais.
E seus pais, como vão? Já terão descido de Petrópolis? Dê-lhes lembranças
minhas, e não esqueça este jovem...
Gatinho Preto.
"Carta do Gatinho Preto", escrita por Machado de Assis após ganhar de presente de sua vizinha um gatinho preto. O texto foi publicado na Revista da Sociedade dos Amigos de Machado de Assis. Foto: Imagem gerada por IA.
